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O Pai do Bem-Estar - Halbert L. Dunn e o livro Bem-Estar de Alto Nível (1961)

Atualizado: há 21 horas

Antes de o wellness se tornar tendência, mercado e linguagem da hospitalidade, Halbert L. Dunn já propunha uma visão mais ampla de saúde, prevenção e potencial humano.


Entenda por que High-Level Wellness, publicado em 1961, segue sendo uma das obras mais importantes para a base conceitual do bem-estar.



No universo do Turismo de Bem-Estar, existe um erro conceitual frequente: tratar wellness como estética, luxo ou tendência contemporânea. Mas o wellness, em sua base mais sólida, não nasceu como linguagem de mercado. Nasceu como uma forma mais ampla de pensar saúde, vitalidade, prevenção e qualidade de vida.


É exatamente por isso que o livro Bem-Estar de Alto Nível (High-Level Wellness), de Halbert L. Dunn, ocupa um lugar tão importante na história do tema. Publicada em 1961, essa obra ajudou a estabelecer uma das ideias mais relevantes do campo: saúde não é apenas ausência de doença. Saúde, em sua expressão mais elevada, é também desenvolvimento de potencial humano, integração e vitalidade.





Quem foi Halbert L. Dunn



Halbert L. Dunn foi médico e teve atuação destacada na área de saúde pública e estatísticas vitais nos Estados Unidos. No entanto, sua importância histórica vai muito além desse campo técnico. Dunn é amplamente reconhecido como o “pai do movimento do bem-estar”, porque foi um dos primeiros autores a formular o wellness como uma visão estruturada de saúde integral, prevenção e funcionamento humano mais elevado.


Seu nome permanece como referência porque ele ajudou a construir uma mudança decisiva de olhar: sair da lógica de apenas combater doenças e avançar para uma lógica de promoção ativa da vida.





O que Dunn trouxe de novo para o conceito de bem-estar



A grande contribuição de Dunn foi distinguir duas ideias que ainda hoje são confundidas:


  • boa saúde, entendida como não estar doente;

  • bem-estar de alto nível, entendido como um processo de desenvolvimento humano mais amplo.



Para Dunn, não bastava apenas estar livre de enfermidades. O ser humano podia caminhar em direção a um estado mais elevado de funcionamento, com mais vitalidade, integração, consciência e qualidade de vida.


Essa formulação é decisiva porque muda a base da conversa. O wellness deixa de ser visto como um estado confortável ou um detalhe complementar e passa a ser compreendido como uma direção de vida.





O significado de “bem-estar de alto nível”



A ideia central de Dunn aparece em sua definição de high-level wellness, que pode ser compreendida como uma condição dinâmica em que o indivíduo avança em direção a um potencial mais elevado de funcionamento.


Há três aspectos importantes nessa formulação.


Primeiro: o bem-estar não é estático.

Ele não é algo fixo, pronto ou definitivo. É movimento.


Segundo: o bem-estar envolve avanço.

Existe uma noção clara de desenvolvimento, crescimento e aperfeiçoamento da vida.


Terceiro: o bem-estar está ligado ao potencial humano.

Não se trata apenas de evitar problemas, mas de ampliar vitalidade, consciência e qualidade de existência.


Essa leitura continua extremamente atual porque conversa diretamente com a definição contemporânea de wellness como busca ativa, e não como condição passiva.





Por que o livro de 1961 é um marco



Nível Elevado de Bem-estar de Halbert Dunn

Halbert Louis Dunn (1896-1975) licenciou-se em medicina e fez o seu doutoramento na Universidade do Minnesota na década de 1920. Ao longo da sua vida veio a desenvolver um trabalho considerável na área estatística, tendo sido Professor Associado de Biometria e Estatísca Vital na Johns Hopkins School of Hygiene and Public Health e responsável pelo National Office of Vital Statistics in Washington, de 1935 a 1961, organismo que entretanto passou a integrar o Serviço de Saúde Pública (1946).


Do Conceito de Saúde ao Conceito de Nível Elevado de Bem-estar


Em 1946, a OMS apresenta, no Preâmbulo da Constituição da Organização Mundial de Saúde, a definição de saúde: um completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.


Apesar do conceito incorporar uma visão positiva e multidimensional da saúde, alguns anos decorridos após a sua divulgação, Halbert L. Dunn estava longe de estar satisfeito com as suas repercussões, já que, escreveu, os olhos de quem o lia estavam ainda imbuídos duma perspectiva de morte e de doença (visão patogénica).


Sem prejuízo das actividades médicas, até então tradicionais, Dunn viu necessidade de criar um novo eixo de interesse, suficientemente forte para cativar os médicos, profissionais de saúde e outros a dedicarem uma parte substancial do seu tempo à compreensão e desenvolvimento da saúde num sentido positivo.


As razões para este novo eixo assentavam nas mudanças demográficas, políticas, económicas e sociais da civilização e que poderiam ser condensadas da seguinte forma:


(1) O mundo está a ficar mais pequeno – eventos que se passam no outro lado do mundo são conhecidos em segundos, assim como as viagens se tornaram mais rápidas;


(2) O mundo está superpovoado – resultando em pressão populacional, escassez de recursos e de espaço para viver;


(3) O mundo está velho – não só no que respeita à população, mas também no aproveitamento dos recursos e da sua máquina produtiva. É uma falácia pensar que os avanços da ciência são eficazes para contrabalançar o rápido esgotamento dos recursos naturais;


(4) O mundo é palco de tensões crescentes – a vida moderna e as exigências que coloca ao ser humano e à sociedade são crescentes, não tendo correspondência no reajustamento e fortalecimento do Homem e das organizações sociais.


Atendendo a estes quatro factores, e baseado nas estatísticas que foi coligindo, Dunn concluiu que as doenças crónicas e mentais tornaram-se mais prevalentes e que uma vasta gama de doenças neuróticas e funcionais, que raramente destroem a vida, mas que interferem com uma vida produtiva e plena, estavam a aumentar. Tomando isto em consideração, afirmou que o caminho para o futuro residia na reorientação da maior parte do interesse e energia para o aumento do nível de bem-estar nas populações, o que exigia a definição em termos objectivos do que um elevado nível de bem-estar (high-level wellness) significava para o sujeito, para a família e estrutura social. De forma a concretizar o objectivo de elevado nível de bem-estar era necessário abandonar a ideia de considerar a doença e o bem-estar como uma dicotomia e passar a considerá-los como fazendo parte de uma escala graduada.


A Grelha da Saúde


Para explicar esta abordagem, Dunn construiu uma grelha constituída por dois eixos: (1) um eixo horizontal, que designou por eixo da saúde e (2) um eixo vertical, que designou por eixo do ambiente.


Da sua intersecção resultavam 4 quadrantes:


(a) saúde deficitária num ambiente desfavorável;


(b) saúde deficitária protegida num ambiente favorável;


(c) nível elevado de bem-estar emergente em ambiente desfavorável e (d) nível elevado de bem-estar (high level wellness) num ambiente favorável.


O eixo vertical compreendia não só os factores físicos e biológicos do ambiente, como também os factores socioeconómicos que afectavam a saúde do indivíduo.


O eixo da saúde desenvolvia-se entre a morte e o pico de bem-estar, num primeiro momento, das doenças graves para as menores e depois para a área de saúde positiva e ausência de doença; num segundo momento, de uma área de “boa” saúde para um objectivo, ainda mal definido, de pico de bem-estar.


Este objectivo, no extremo oposto da morte, representava o indivíduo no seu máximo de potencial, em função da sua idade e formação e devia ser compreendido naquilo que representa não só para ele, como para a família, comunidade e sociedade em geral.


Como a natureza deste objectivo era dinâmica, este provavelmente nunca seria atingido em termos absolutos, mas as suas características poderiam ser conhecidas e apreciadas em termos relativos.


O objectivo, na perspectiva de Dunn, não podia deixar de considerar o espírito do Homem, até então terreno considerado da responsabilidade da metafísica e da religião, antes pelo contrário, deveria ser encontrado o caminho que estabelecesse uma ponte entre a natureza biológica e o espírito do Homem, sendo este aquela “coisa” intangível que transcendia a fisiologia e a psicologia.


Dependendo largamente o espírito do Homem daquilo que vem de dentro, seria importante descobrir formas de o tornar mais consciente do seu mundo interior através do qual conceptualiza e interpreta as suas percepções do mundo exterior.



Devido a uma cultura ocidental fortemente enraizada havia a tendência para estudar o Homem em função de 3 áreas: a do corpo, da responsabilidade do médico; a da mente, da responsabilidade do psicólogo e do psiquiatra; a do espírito, da responsabilidade do padre.


De forma análoga, o desenvolvimento e manutenção do ambiente físico, social, económico ficou entregue aos economistas e políticos.


Esta fragmentação, no entender de Dunn, não conduzia à harmonia, já que esta só se obtia encarando o Homem como uma unidade física, mental e espiritual – uma unidade em constante processo de crescimento e ajustamento, num ambiente físico, biológico, social e cultural em permanente mutação.


A abordagem feita sobre a perspectiva dum especialista era perfeitamente compreensível e justificável, contudo ela jamais poderia esquecer a natureza unitária do Homem implicando, naturalmente, que um nível elevado de bem-estar nunca poderia ser atingido por fragmentos, ignorando a unidade de um todo.



Expectativas


Ao antecipar o impacto das alterações demográficas, Dunn esperava, com a sua abordagem, contribuir para a resolução dos problemas dos cidadãos mais velhos, problemas estes que iam para além do salvamento de uma vida ou cura de uma doença crónica.


O grande desafio residia em como manter uma pessoa capaz até ao final dos seus dias, funcionando como uma unidade dinâmica dentro da população e contribuindo para a sociedade, de forma a que possa manter o seu sentido de valor e dignidade.


No que respeita aos médicos, por exemplo, esperava que a compreensão do seu conceito e o reconhecimento, por aqueles, de vários níveis de bem-estar pudesse conduzir à redução das doenças crónicas, já que nos níveis mais baixos estariam os percursores das doenças.


Pai do Movimento Wellness


Considerado por muitos como o Pai do Movimento Wellness (bem-estar), Dunn integrou na sua filosofia de bem-estar muitos dos elementos que mais tarde foram desenvolvidos por outros:


  • O wellness é um continuum, em lugar dum estado estático específico. Todos os sujeitos, dependendo das suas circunstâncias particulares, encontram-se algures no continuum entre a morte e o nível elevado de bem-estar;


  • O wellness é uma abordagem holística à saúde, que engloba as dimensões física, mental, social, cultural e espiritual;


  • O bem-estar mental é da responsabilidade do indivíduo e não pode ser delegada em ninguém;


  • O wellness refere-se ao potencial – envolve ajudar o indivíduo a deslocar-se para o nível mais elevado de bem-estar do qual é capaz;


  • Auto-conhecimento e auto-integração são a chave do progresso para um nível elevado de bem-estar.


Bibliografia


Dunn, Halbert L. High-Level Wellness for Man and Society. American Journal of Public Health and the Nations Health: June 1959, Vol. 49, No. 6: 786–792

Miller, James William (2005). Wellness: The History and Development of a Concept. Spektrum Freizeit, 2005(1), 84-102.









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Entenda por que o livro Bem-Estar de Alto Nível (1961), de Halbert L. Dunn, é uma obra fundamental para compreender o conceito de wellness e sua aplicação no Turismo de Bem-Estar.


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